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    86 ANOS DE NOÉMIA DE SOUSA: "Se me quiseres conhecer "



    Para Antero

    Se me quiseres conhecer,
    estuda com olhos bem de ver
    esse pedaço de pau preto
    que um desconhecido irmão maconde
    de mãos inspiradas
    talhou e trabalhou
    em terras distantes lá do Norte.

    Ah, essa sou eu:
    órbitas vazias no desespero de possuir vida,
    boca rasgada em feridas de angústia,
    mãos enormes, espalmadas,
    erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
    corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
    pelos chicotes da escravatura...
    Torturada e magnífica,
    altiva e mística,
    África da cabeça aos pés,
    - ah, essa sou eu

    Se quiseres compreender-me
    vem debruçar-te sobre minha alma de África,
    nos gemidos dos negros no cais
    nos batuques frenéticos dos muchopes
    na rebeldia dos machanganas
    na estranha melancolia se evolando
    duma canção nativa, noite dentro...

    E nada mais perguntes,
    se é que me queres conhecer...
    Que não sou mais que um búzio de carne,
    onde a revolta de África congelou
    seu grito inchado de esperança.


    Se estivesse viva, hoje a escritora moçambicana Noémia de Sousa, completaria 86 anos de vida. Quem é ela?
    Escritora moçambicana, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares nasceu a 20 de Setembro de 1926, em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique. O seu trabalho poético continua por publicar em livro. Poetiza que, numa espécie de postura predestinada, desembaraçando-se das normas tradicionais europeias, de 1949 a 1952 escreve dezenas de poemas, estando muitos deles dispersos pela imprensa moçambicana e estrangeira.
    Com apenas 22 anos de idade, surge na senda literária moçambicana num impulso encantatório, gritando o seu verbo impetuoso, objectivo e generoso, vincado (bem fundo) na alma do seu povo, da sua cultura, da sua consciência social, revelando um talento invulgar e uma coragem impressionante.
    Toda a sua produção é marcada pela presença constante das raízes profundamente africanas, abrindo os caminhos da exaltação da Mãe-África, da glorificação dos valores africanos, do protesto e da denúncia.
    Poesia de forte impacto social, acusatória, a sua linguagem recorre estilisticamente à ressonância verbal, ao encadeamento de significantes sonoros ásperos, à utilização de palavras que transportam o “grito inchado” de esperança.
    Noémia de Sousa, como autêntica pioneira da Literatura Moçambicana (como assim sempre foi considerada) preconiza - no seu percurso literário - a revolução como único meio de modificar as estruturas sociais que assolam a terra moçambicana.
    Nos seus poemas, o “eu” de Noémia de Sousa é entendido como um “colectivo”, um povo inteiro que quer ter palavra - o povo moçambicano. Desta forma, a poetiza assume-se como porta-voz daquele povo que é o seu e, dirigindo-se à terra-mãe que os acolhe e protege, ora canta a sua vida, ora lhe pede perdão pela alienação demonstrada ao longo de tanto tempo, ora (mesmo) lhe promete a rápida e definitiva devolução do seu direito a uma vida própria, autêntica.


    1 comentários:

    ..poetar é....descobrir os meandros mais recônditos da alma, e, num emaranhado de sentimentos, tornar-se um "colectivo" que transcende a si próprio e se transforma num povo...que grita, que ama, que sofre, que ama!...(Camões era isso, também!)

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